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Como vírus podem ser usados no combate ao câncer

10/10/2018

cancer como curar

Fonte: Saúde Abril

De um lado, o vírus do herpes, responsável por bolhas que aparecem nos lábios e nos genitais. Do outro, o melanoma, o mais agressivo câncer de pele. Se os dois subissem no ringue do corpo humano, quem levaria a melhor? Para responder a essa pergunta — e bolar um tratamento inusitado contra o tumor —, foram convocados cientistas de 64 centros de pesquisa espalhados por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e África do Sul. E, a julgar pelo resultado dos testes com 436 voluntários, todos com melanoma inoperável e já disseminado, o agente infeccioso derrubou o adversário. Vitória para… os pacientes.

Essa estratégia de contra-ataque ao câncer é a essência da terapia T-Vec, que se vale de vírus modificados em laboratório e foi desenvolvida e lançada pela farmacêutica Amgen em solo americano e europeu.

Segundo Daniel Martinez, diretor médico da companhia no Brasil, 40% dos indivíduos avaliados tiveram resposta ao tratamento, 16,6% deles se livraram por completo das lesões e 95% daqueles que reagiram bem ao método permaneceram vivos por mais de três anos após o estudo.No comparativo, os pacientes não submetidos à “virusterapia” viveram, em média, menos de dois anos. “São resultados promissores, ainda mais considerando quão agressiva é a doença”, afirma Martinez.

Atenção a um detalhe fundamental: o vírus do herpes que foi para a batalha não era um vírus como outro qualquer. Trata-se de um agente geneticamente modificado. Graças à engenharia genética, o vírus deixa de ser capaz de causar os danos do herpes. Melhor: passa a desferir seus golpes apenas nas células do câncer, poupando as saudáveis. E tem um bônus: ele ainda estimula a imunidade do paciente a reagir e partir para o ataque.

Após o fim da luta, ops, dos estudos, o T-Vec conquistou os cinturões (perdão, o aval!) das agências regulatórias dos EUA e da Europa e hoje está disponível para reforçar o tratamento da doença — a terapia é particularmente bem-vinda nos casos em que o tumor se encontra localmente avançado.

O mecanismo de ação se baseia em um vírus oncolítico, isto é, que destrói células cancerosas. Lá fora, o tratamento consiste de uma série de injeções com o princípio ativo vivo — uma dose a cada duas semanas ao longo de seis meses — aplicadas em centros de referência com equipes treinadas. Os efeitos colaterais são idênticos aos de um quadro viral: febre, náuseas e calafrios.

Martinez estima que a inovação demore uns cinco anos para atuar no Brasil. O T-Vec ainda passa por pesquisas que analisam sua eficácia quando aliado a outras terapias. Sim, porque a ideia não é que o vírus lute sozinho contra o melanoma. “A combinação de múltiplos mecanismos de ação tende a aumentar a resposta do tratamento”, explica o médico. É um horizonte animador diante de uma doença com altas taxas de letalidade.

Mas saiba que a ideia de colocar um vírus para se digladiar com o câncer não é exatamente uma novidade. “Na virada do século 20, observou-se que algumas infecções virais podiam levar pacientes a melhoras transitórias”, conta o biólogo Martin Bonamino, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Na época, pacientes com linfoma, por exemplo, foram “tratados” com o vírus da hepatite e alguns apresentaram recuperação temporária. Agora, o advento da engenharia genética e o conhecimento sobre biologia molecular permitem que o conceito seja aprimorado e as táticas se tornem mais seguras e eficientes.

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