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Bernard Pécoul, médico: ‘O sistema de produção de remédios é insustentável’

30/06/2016

160630 - Bernard Pescoul

Fonte: O Globo

“Nasci em Saint-Flour, França, há 59 anos. Sou casado, com quatro filhos e dois netos e me formei pela Universidade de Clermont-Ferrand. Tenho mestrado em Saúde Pública pela Universidade de Tulanenos, EUA. Sou diretor executivo e um dos fundadores da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi).”

Conte algo que não sei.

Uma grande parte da população mundial ainda está sendo tratada com medicamentos antigos — isso, quando é tratada. A falta de pesquisas nas áreas e os recentes escândalos em torno dos preços dos remédios mostram que o sistema atual de produção de remédios é insustentável e precisa ser modificado.

Como surgiu a ideia de criar a DNDi, com foco no desenvolvimento de medicamentos?

Nos Médicos Sem Fronteiras, muitas vezes, nos víamos em situações em que éramos incapazes de cuidar adequadamente das pessoas. Os tratamentos não eram acessíveis nem distribuídos, não atendiam às necessidades da população ou nem existiam. Os mais pobres sofriam com o descaso da indústria farmacêutica. Na tentativa de mudar essa situação inaceitável, criamos um grupo, incluindo institutos públicos de países endêmicos, para assegurar que essas necessidades seriam atendidas. Em dez anos, produzimos seis novos tratamentos, dois deles no Brasil. A expectativa é chegar a 18 novos tratamentos até 2023.

Quais as doenças negligenciadas presentes no Brasil?

De acordo com a OMS, a doença de Chagas, a leishmaniose e a filariose. Mas são as duas primeiras que mais afetam o Brasil.

Há um surto de leishmaniose cutânea nos campos de refugiados no Oriente Médio. Esse vírus pode atingir o Brasil?

No Brasil, os casos de leishmaniose visceral são a grande maioria. É preciso se preocupar com o vírus que já existe aqui e mata muitas pessoas todos os anos.

Como está o Brasil em relação às doenças negligenciadas?

O país tem um sistema de vigilância eficiente. Detectou os casos de microcefalia e sua possível relação com o vírus Zika quando o surto estava no início. O desafio é melhorar as opções de tratamento para leishmaniose e doença de Chagas. Os medicamentos e as análises para diagnóstico são os mesmos há 50 anos.

Por que não há novos investimentos? É possível erradicar a Doença de Chagas?

Desenvolver medicamentos neste campo não é um mercado lucrativo para a indústria, e tem sido difícil estimular o interesse do governo em Chagas, devido às complexidades da doença: há pacientes assintomáticos, e as manifestações não aparecem até um estágio avançado. Antes de falar em erradicação é preciso pensar em assegurar acesso ao tratamento, que hoje atinge menos de 1% dos afetados.

Casos de malária registrados no Rio ano passado assustaram. Há motivo para pânico?

O grande risco na doença está na possibilidade de aparecimento de resistência aos medicamentos existentes. Por isso, é preciso atualizar os tratamentos.

Eventos como os Jogos ajudam a disseminar doenças?

Não há razão para pânico. O recente surto de leishmaniose cutânea na Síria levantou questões importantes sobre a propagação da doença na Europa a partir de imigrantes. Assim como o estigma, essas histórias mascaram a necessidade de pesquisa.

Que novas epidemias podem surgir no Brasil?

Ebola e Zika colocaram o surgimento de novas pandemias no radar político. A OMS advertiu que há três ameaças mais silenciosas e lentas: mudanças climáticas, que estão mudando o padrão das doenças; a resistência antimicrobiana; e doenças não transmissíveis, como diabetes e câncer, que estão se tornando as maiores assassinas do mundo.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/bernard-pecoul-medico-sistema-de-producao-de-remedios-insustentavel-19604298#ixzz4D5EFlyAr
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