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Brasil enfrenta novo surto de dengue

03/10/2019
A dengue tem como agentes etiológicos quatro vírus, os quais desencadeiam a mesma doença clínica; no entanto, a imunidade conferida pela doença é específica para cada tipo

Fonte: Jornal da USP

O Brasil enfrenta uma nova epidemia de dengue. A doença, que estava em baixa há dois anos, apresentou crescimento de 600%, em comparação ao mesmo período de 2018, e tem como principal causador o vírus de tipo dois. Expedito José de Albuquerque Luna, professor do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP, explica que o surto de dengue é algo esperado, pois desde sua introdução no Brasil, há 30 anos atrás, a incidência é variante.

A dengue tem como agentes etiológicos quatro vírus, os quais desencadeiam a mesma doença clínica, no entanto, a imunidade conferida pela doença é específica para cada tipo. Na última década, predominou o tipo um, mas agora o vírus tipo dois da dengue está em evidência e as pessoas ainda não desenvolveram resistência a ele.

Ainda não há vacina com alta eficácia para dengue, existe apenas um produto no mercado, mas que possui limitações em seu uso. O Aedes aegypti, causador da dengue, pode transmitir também zika, chikungunya e, potencialmente, febre amarela. Logo, o controle do vetor torna-se imprescindível. Todavia, isso é algo difícil de ser feito pois é um inseto urbano que acompanha o ser humano e já está adaptado ao meio.

A campanha de combate ao Aedes aegypti costuma ser lançada em novembro, porém, para que tivesse seu início antes do período de chuvas, foi adiantada em 2019 para setembro. Ela incentiva que cada pessoa tome dez minutos de sua semana para verificar se há focos de água parada em sua casa. A população deve reportar focos do mosquito à prefeitura do município em que vive, para que assim sejam tomadas as devidas providências. Em São Paulo, basta discar 156.

Novo parasita causa morte em Sergipe com caso similar à leishmaniose

03/10/2019
Parasitas: um dos desafios é descobrir como surgiu o patógeno e por quais vetores ele é transmitido para os seres humanos 

Fonte: Exame Abril

São Paulo — Pesquisadores identificaram em pacientes atendidos no Hospital Universitário de Sergipe, em Aracaju, uma nova espécie de parasita capaz de causar uma doença semelhante à leishmaniose visceral, porém refratária aos tratamentos disponíveis. Ao menos uma pessoa morreu em decorrência de complicações relacionadas à infecção.

Resultados da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram divulgados nesta segunda-feira (30/9) na revista Emerging Infectious Diseases.

Os dados da análise filogenômica, que permite construir árvores evolutivas com base em dados de sequenciamento, indicam que o protozoário recém-descoberto não pertence ao gênero Leishmania, composto por mais de 20 espécies causadoras de três diferentes tipos de leishmaniose: visceral, cutânea e difusa (que causa lesões na pele e nas mucosas).

“Do ponto de vista filogenético, a espécie analisada neste estudo está mais próxima da Crithidia fasciculata, um parasita de mosquito que não é capaz de infectar humanos ou outros mamíferos. Conseguimos infectar camundongos com ele e, por esse motivo, acreditamos se tratar de um novo protozoário, para o qual propomos a nomenclatura Cridia sergipensis”, disse João Santana da Silva, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e membro do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP.

O primeiro caso foi confirmado em um homem de 64 anos, atendido pela primeira vez em 2011 com um quadro clássico de leishmaniose visceral: febre, aumento do baço e do fígado e diminuição de todos os tipos de células sanguíneas (pancitopenia).

“Ele recebeu o tratamento padrão e melhorou, mas teve recaída apenas quatro meses depois. Foi então tratado com a melhor droga disponível para esses casos – a anfotericina B lipossomal – e respondeu, mas oito meses depois teve nova recidiva. Desta vez, desenvolveu pápulas avermelhadas na pele, disseminadas por todo o corpo, algo que não vemos em leishmaniose visceral”, disse Roque Pacheco Almeida, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), chefe do Laboratório de Biologia Molecular do Hospital Universitário e pesquisador associado ao CRID.

“Infelizmente, com as recidivas, falhas terapêuticas sucessivas e a disseminação da doença para a pele, o paciente veio a falecer após a cirurgia para retirada do baço, recomendada em casos graves que não respondem ao tratamento”, disse Almeida.

Uma biópsia feita nas lesões cutâneas revelou células de defesa repletas de parasitas, que foram isolados e criopreservados para análise. Os pesquisadores também isolaram amostras da medula óssea (durante a segunda e a terceira recidivas) e do baço (após a remoção cirúrgica).

Inicialmente, o grupo imaginou se tratar de uma infecção atípica por Leishmania infantum. No entanto, os testes moleculares existentes para o diagnóstico desse patógeno foram todos inconclusivos nas análises feitas com os parasitas isolados tanto da medula óssea, quanto das lesões da pele.

UERJ divulga novo Concurso Público

20/09/2019

UERJ divulga novo Concurso Público

Fonte: PCI Concursos

As inscrições podem ser feitas de 14 de outubro de 2019 até 14 de novembro de 2019, na Secretaria da Disciplina de Microbiologia e Imunologia do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia, no Prédio Américo Piquet Carneiro, localizado na Avenida 28 de Setembro, 87 fundos, 3º andar, Vila Isabel, das 11h às 16h.

Objetivo é o preenchimento de uma vaga para Professor Adjunto na área de Imunologia do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Faculdade de Ciências Médicas.

Este certame será realizado por meio de Provas Objetivas e de Títulos, demais informações referentes a remuneração e carga horária serão disponibilizadas em breve.

Para mais informações consulte o extrato de edital disponível em nosso site.

Cruzamento entre Aedes comum e transgênico cria “super mosquito” da dengue na Bahia

20/09/2019

Fonte: Voz da Bahia

Entre os anos de 2013 e 2015, um estudo realizado pela empresa britânica Oxitec liberou cerca de 12 milhões de mosquitos Aedes aegypti transgênicos machos na cidade de Jacobina, no Centro-Norte da Bahia. Na época, o parecer técnico com a autorização foi emitido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

A proposta inicial seria a de utilizar o “novo” inseto para conter a população do mosquito já existente, no entanto, o cruzamento entre o animal comum com o transgênico acabou criando um “super mosquito” da dengue, febre amarela, zika e Chikungunya, no estado. A informação foi divulgada na terça-feira (10), em um artigo publicado pela Scientif Reports, do grupo Nature Research.

Conforme a publicação, os pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Entomologia Molecular e da Moscamed Brasil que assinam o estudo tratam o assunto como uma “anomalia”. Eles afirmam que a chamada introgressão (troca genética) teria feito com que de 10% a 60% dos mosquitos Aedes carreguem ao menos um gene do encontrado no inseto geneticamente modificado, o OX513A.

O que se era esperado inicialmente é que uma pequena proporção desses animais, cerca de três a quatro por cento, iria atingir a idade adulta e, mesmo que chegassem a esse estágio, não conseguiriam se reproduzir. Contudo, estudos apontam que os “novos” mosquitos não só são potenciais transmissores de doenças, como podem ainda ser mais resistentes que os anteriores.

Investigação

Em contato com o Varela Notícias, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou que o caso já está sendo avaliado pela Presidência e Vice-Presidência da CTNBio e que pesquisadores independentes estão sendo consultados. Contudo, ainda não existe a comprovação de que o inseto seja mais resistente ou capaz de causar danos à população e ao meio ambiente.

As liberações, conforme o Ministério, são monitoradas pela CTNBio e o Relatório Final do Monitoramento Pós-Liberação Comercial do Mosquito e o caso “será examinado em caráter de urgência na próxima Reunião Ordinária da Comissão nos dias 2 e 3 de outubro”. Esta reunião será feita para monitorar e acompanhar as pesquisas e entender quais serão as providências tomadas daqui em diante.

“A CTNBio é o órgão competente para a avaliação dos potenciais impactos da tecnologia e que, em caso da verificação de possíveis riscos, possui atribuições para garantir que sejam tomadas ações eficazes no controle de possíveis impactos negativos. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações está acompanhando o assunto e possui pessoal técnico destacado para monitorar e, se necessário, obter novos estudos e análises sobre o tema”, finalizou.

O Ministério Público da Bahia (MP-BA) também foi procurado e informou ao VN que um procedimento será instaurado para apurar a veracidade dos fatos, no entanto, ainda não há informações detalhadas sobre o caso, uma vez que as informações são preliminares. É possível, contudo, que caso o MP participe das investigações, a ação aconteça em parceria com o âmbito federal.

As Secretarias de Saúde da cidade de Jacobina e do Estado da Bahia (Sesab) foram procuradas pelo VN, mas não retornaram até o fechamento desta matéria. (Varela)

Instituições definem estratégia de luta contra o desmonte da ciência

09/09/2019
Resultado de imagem para desmonte da ciência

A Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br) irá intensificar as frentes de ações em defesa da Educação e da CT&I no País. Em 25 de setembro, será realizada uma Marcha Pela Ciência no Congresso. O objetivo é recuperar o orçamento da área e engajar a sociedade civil

As entidades científicas que compõem a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br) definiram estratégias para intensificar as ações em defesa da Educação e da Ciência, Tecnologia & Inovação (CT&I). O objetivo é sensibilizar os parlamentares e todos os setores da sociedade para a causa da ciência, ameaçada de desmonte no governo Jair Bolsonaro, pelos cortes orçamentários que atingem universidades, bolsas de estudos e projetos de pesquisa. Uma Marcha Pela Ciência já está definida para ser realizada no dia 25 de setembro no Congresso Nacional.

A decisão foi tomada em reunião quarta-feira (4/9) pelas instituições coordenadoras da iniciativa: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); Academia Brasileira de Ciências (ABC); Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap); Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes); Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti); Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies) e Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif).

De acordo com o presidente da SBPC, Ildeu de Castro Moreira, a mobilização visa juntar forças que possam se contrapor ao processo em curso no governo que prejudica fortemente a área. “O desmonte do sistema nacional de CT&I deve preocupar não só os cientistas, os pesquisadores, mas toda a sociedade brasileira, os empresários, os trabalhadores, todos”, afirmou Moreira.

No Congresso, a iniciativa tem como foco principal o início da tramitação da proposta de Orçamento Geral da União para o ano que vem (PLOA 2020) e projetos de lei específicos para reforço da verba pública para o setor. O PLOA 2020 propõe um corte de 18% nos recursos totais do Ministério da Educação (MEC) em relação aos valores autorizados de 2019. As reduções vão da educação básica à pós-graduação, mas o impacto será muito maior no financiamento de pesquisas e nas contas de grandes universidades federais.

O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) sofreu queda de 22,53% no Orçamento Geral da pasta, que terá R$ 11,8 bilhões em 2020. Excluídas as despesas obrigatórias, a Reserva de Contingência e serviços da Dívida Pública, o decréscimo no orçamento do MCTIC é de 38%, com apenas R$ 3,5 bilhões para aportes gerais nos programas e unidades.

Segundo Moreira, o objetivo da ICTP.br é não apenas reverter os cortes – que ele qualificou de “draconianos e ameaçadores” -, mas propor uma elevação dos recursos, retornando aos limites de 2017. “Vamos propor que os valores sejam aumentados para o total de dois anos atrás, que não é muito, mas ajuda a deter a queda acentuada que estamos sofrendo”.

No dia 18/9 haverá uma reunião prévia da Iniciativa em Brasília, para contatos com parlamentares ligados à Comissão Mista do Orçamento (CMO). Será proposta uma Audiência Pública na comissão sobre o PLOA 2020 para CT&I e Educação, quando relatores setoriais forem indicados. “O mês de setembro é fundamental porque o PLOA já foi enviado, os parlamentares estão começando a discutir e nós queremos influenciar nesse processo, por isso é fundamental a participação da comunidade científica e acadêmica no Congresso Nacional”, reiterou Moreira.

Reforço de verbas

Além da lei orçamentária, as entidades que representam a ICTP.br também vão defender junto aos parlamentares a aprovação dos Projetos de Lei que tratam da destinação de 25% do Fundo Social do Pré-Sal para CT&I (PL 5.876/2016, dos deputados Celso Pansera – PT-RJ- e Bruna Furlan -PSDB-SP -, e o PLS 181/2016, do senador Lasier Martins, do Podemos-RS). Será dado apoio ainda ao projeto que veda o contingenciamento do FNDCT, Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PLP 358/2017 do deputado Daniel Vilela, do MDB-GO) e/ou o PLS que transforma o FNDCT em fundo financeiro (PLS 315/2017, do senador Otto Alencar, do PSD-BA).

Além disso, haverá atuação em favor da PEC 24/19, da deputada Luisa Canziani (PTB-PR), que exclui da Lei do Teto (Emenda Constitucional 95) recursos próprios das universidades, permitindo que sejam usufruídos integralmente pelas instituições. “É um absurdo que o governo tenha um discurso que estimula as universidades a buscar recursos próprios e, no entanto, quando elas conseguem, esse dinheiro é apropriado pelo Tesouro quando chega no teto. É um contrassenso absoluto”, argumenta o presidente da SBPC. Segundo ele, em audiência com representantes da CT&I (em 28/8), o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), revelou ser favorável à PEC 24/19.

Engajamento da sociedade

Na reunião de quarta-feira foi decidida ainda uma ampla ação coordenada de divulgação junto à sociedade. Será publicado em jornais e nas redes sociais um Manifesto à Nação em defesa da Ciência Brasileira, buscado apoio de todos os setores – acadêmicos, profissionais, empresariais, trabalhadores, entidades da sociedade civil, setores militares progressistas e personalidades de destaque (artistas, intelectuais, esportistas, etc.). O Manifesto será apresentado em vários estados em uma campanha de engajamento que inclui fotos e atos com pesquisadores, técnicos e estudantes.

“A ideia é promover e estimular a realização de atividades em defesa da CT&I em todas as instituições de pesquisa e universidades, com banners, com o Manifesto na entrada das instituições, fotos nas redes sociais, atos e ‘abraços’ às instituições como foi feito no Inpa”, explicou Moreira.

Ele se referia ao “abraço” que dezenas de servidores, pesquisadores, alunos de mestrado e doutorado deram à sede do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), em prol da manutenção dos recursos e defesa da instituição.

Além disso, serão promovidos e estimulados debates e eventos em todas as instituições de pesquisa, universidades e Institutos Federais de Ensino Superior (IFES) sobre a situação da CT&I no País. Passeatas e marchas pela ciência nas capitais e em outras cidades também estão na programação, dependendo da avaliação da capacidade de mobilização e datas apropriadas.

“É muito importante que as comunidades acadêmica e científica se mobilizem mais nos seus locais de trabalho e em ações junto à população”, disse Moreira. Segundo ele, a mensagem que será levada à sociedade brasileira é que a Ciência é um patrimônio nacional que tem que ser preservado.

Fonte dilapidada

A grande aposta dos representantes da ICTP.br está na sensibilização do Congresso já que o espaço para negociação com o Executivo tem se apresentado bastante restrito. “Temos tentado falar com o governo, mas o Ministério da Fazenda está irredutível, tem sido insensível, o que evidencia a política de desconstrução da CT&I de fato”, disse Moreira.

É preciso ficar claro para o Congresso, afirma o presidente da SBPC, que o fomento para a pesquisa e os recursos para o FNDCT são essenciais, são a fonte mais importante para pesquisa e desenvolvimento do País que vem sendo dilapidada, em desvio de finalidade. Moreira acrescenta que a reserva de contingência na proposta orçamentária, que este ano foi de R$ 4 bilhões e ano que vem será ainda maior, retira recursos da CT&I para o Tesouro Nacional pagar os encargos da dívida pública e fazer o chamado equilíbrio fiscal. “É inconcebível que bilhões de reais sejam utilizados para outras finalidades como pagar a dívida pública, cobrir os juros astronômicos”.

Para Moreira, diante desse quadro, a mobilização da comunidade e da sociedade em geral é fundamental para apoiar esse esforço. “As pessoas ficam muito indignadas, com razão, como o corte de bolsas, que afetam profundamente milhares de estudantes e jovens pesquisadores. Mas além dessa briga pelas bolsas, tem que fazer uma briga mais ampla, defender o sistema como um todo, porque não adianta ter a bolsa se o laboratório está parado” destacou Moreira.

Campanha tem apoio

As entidades componentes da ICTP.br se comprometeram a apoiar a campanha lançada pela SBPC da produção de vídeos com depoimento de bolsistas do CNPq e da Capes.

Lançada esta semana, a campanha “Ciência, para que Ciência?”, reunirá e divulgará vídeos com depoimentos de estudantes e pesquisadores sobre a importância de seus trabalhos e como o financiamento público é vital para garantir o desenvolvimento e continuidade dessas pesquisas.

A campanha tem como objetivo chamar a atenção para o impacto que as pesquisas têm no desenvolvimento econômico e social do Brasil e como os cortes severos impostos pelo governo às duas principais agências de fomento do País – Capes e CNPq – impedem o desenvolvimento de estudos importantes para o Brasil, comprometem o futuro da ciência e dos cientistas e trazem prejuízos para toda a população.

Novo estudo diz que erradicação da malária é possível até 2050

09/09/2019
Novo estudo diz que erradicação da malária é possível até 2050
O objetivo da erradicação global da malária, uma das doenças mais antigas e mortais do mundo, pode ser alcançado até 2050, segundo um novo estudo publicado hoje pela comissão para a malária da revista científica The Lancet.

Fonte: MundoAoMinuto

Um futuro livre de malária […] pode ser alcançado tão cedo como 2050″, revela o estudo, da autoria de 41 dos principais especialistas mundiais em malária, ciências biomédicas, economia e políticas de saúde.

O estudo sintetiza as evidências científicas, combinando-as com novas análises epidemiológicas e financeiras que demonstram que – com as ferramentas e estratégias certas e o financiamento adequado – a erradicação da doença é possível no espaço de uma geração.

Os especialistas identificam três medidas para inverter a curva da progressão da doença, acelerando o declínio dos casos de malária a nível mundial, incluindo um aumento anual de cerca de dois mil milhões de dólares (perto de 1,8 mil milhões de euros).

Melhorar a gestão e implementação dos atuais programas de controlo da malária e fazer um uso mais eficiente das atuais ferramentas, desenvolver ferramentas inovadoras que permitam ultrapassar os desafios biológicos da erradicação e disponibilização, por parte dos países onde a malária é endémica, de investimento financeiro adequado são as propostas dos especialistas.

“Por demasiado tempo, a erradicação da malária foi um sonho distante, mas agora temos provas de que a malária pode e deve ser erradicada até 2050”, disse Richard Feachem, copresidente da Comissão Lancet para Erradicação da Malária e diretor do Grupo de Saúde Global da Universidade da Califórnia, San Francisco (UCSF).

“Este estudo diz que a erradicação da malária é possível no tempo de uma geração, mas para alcançar esta visão comum não podemos continuar com a abordagem atual. O mundo está num ponto crítico e devemos desafiar-nos com metas ambiciosas e comprometer-nos com as ações ousadas necessárias para as alcançar”, acrescentou.

Desde 2000, a incidência da malária e a taxa de mortalidade a nível global caíram 36 e 60 por cento, respetivamente, tendo-se registado igualmente um aumento do investimento na prevenção e tratamento da doença, que em 2016 ascendeu a 4,3 mil milhões de dólares (cerca de 3,9 mil milhões de euros).

Hoje, mais de metade dos países do mundo estão livres de malária.

Apesar dos progressos e dos esforços globais, mais de 200 milhões de casos de malária são registados em todo o mundo a cada ano, causando mais de meio milhão de mortes.

Os casos de malária aumentaram em 55 países em África, Ásia e América Latina e crescem as preocupações com a resistência dos mosquitos responsáveis pela transmissão (vetores)aos atuais inseticidas e medicamentos.

A maioria dos novos casos de malária surgem em apenas 29 países, que são responsáveis por 85% das mortes registadas em 2017.

Entre os 29 países, apenas dois – Papua Nova Guiné e Ilhas Salomão – não estão localizados em África.

Apenas dois países africanos – Nigéria e República Democrática do Congo – são responsáveis por 36% dos casos de malária a nível mundial.

“Apesar dos progressos inéditos, a malária continua a privar comunidades em todo o mundo do seu potencial económico, particularmente em África, onde apenas cinco países carregam quase metade do peso global [da doença]”, adiantou Winnie Mpanju-Shumbusho, membro do RBM Partnership to End Malaria e co-presidente da comissão The Lancet para a erradicação da malária.

Num comentário ao estudo, o diretor geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, considerou a meta “ousada”, considerando que o objetivo não poderá ser alcançado “com as atuais ferramentas e abordagens”.

Por isso, apelou para “redobrados esforços” na investigação e desenvolvimento, maior e mais efetivo investimento e sistemas de saúde robustos baseados na saúde primária e na cobertura universal.

Nova molécula interrompe ciclo de vida do parasita da malária

04/09/2019
Pesquisador usando pipeta
Composto inibe enzima importante para o protozoário, interrompendo seu ciclo de vida no organismo humano e impedindo a transmissão para o mosquito vetor – CQMED

Um grupo internacional de pesquisadores comprovou que uma molécula denominada TCMDC-135051 é capaz de inibir seletivamente uma proteína essencial para o ciclo de vida do plasmodium falciparum, uma das espécies causadoras da malária.

Os resultados do estudo, publicados nesta sexta-feira (30/8) na revista Science, abrem caminho para o desenvolvimento de um novo fármaco contra a doença, que tem 200 mil novos casos e mata quase meio milhão de pessoas no mundo anualmente. Um dos obstáculos para a erradicação da malária (https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2019/03/especial-reune-materias-de-ricardobonalume- neto-um-ano-apos-sua-morte.shtml), atualmente, é o fato de o parasita ter adquirido resistência aos medicamentos existentes.

Entre os autores estão integrantes do Centro de Química Medicinal (CQMED), sediado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob a
coordenação do professor Paulo Arruda, e apoiado pela Fapesp por meio do Programa Parceria para Inovação Tecnológica (PITE). O grupo integra a rede do Structural Genomics Consortium (SGC) —consórcio internacional de universidades, governos e indústrias farmacêuticas para acelerar o
desenvolvimento de novos medicamentos. O CQMED também é uma Unidade de Inovação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

Sintetizada pela farmacêutica GSK, a molécula TCMDC-135051 mostrou ação específica sobre a proteína quinase PfCLK3 (sigla para cyclin-dependent–like kinase), sem afetar proteínas humanas.

“A inibição da PfCLK3 afeta o parasita em diferentes estágios de desenvolvimento —tanto no que chamamos de fase assexuada, quando ele se prolifera dentro da célula humana e provoca os sintomas, quanto na fase sexuada, quando pode ser transmitido de volta para o inseto vetor e completa seu ciclo, podendo infectar outros seres humanos”, disse Paulo Godoi, que realizou o trabalho durante pós-doutorado no CQMED.

Também participou do estudo Dev Sriranganadane, que atualmente realiza estágio de pós-doutorado no mesmo centro. A pesquisa foi coordenada por
Andrew Tobin, da Universidade de Glasgow, na Escócia.

“O grupo da Unicamp teve um papel essencial nesse projeto. Eles foram
capazes de responder se nossa droga poderia ter outros efeitos além de inibir a PfCLK3. Sem essa informação, não poderíamos ter prosseguido com o estudo”, disse Tobin à Agência Fapesp.

Como os parasitas do gênero Plasmodium estão se tornando cada vez mais
resistentes às drogas antimaláricas existentes, há uma preocupação
crescente em encontrar novos compostos com potencial para serem
transformados em fármacos. “Esse inibidor da PfCLK3 é bastante promissor, pois é capaz de eliminar o parasita em todas as fases do seu ciclo de vida”, disse Godoi.

A PfCLK3 controla a atividade e a produção de outras proteínas importantes para a manutenção da vida do parasita. Ao bloquear sua atividade, a molécula mata o P. falciparum e não só previne a transmissão como pode tratar a doença em humanos https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2019/01/pandemiaspoderao-causar-danos-bilionarios-nos-proximos-anos-diz-relatorio.shtml).

A TCMDC-135051 foi selecionada entre 24.619 moléculas que poderiam ter efeito sobre a PfCLK3 e foi a que mostrou maior especificidade sobre a proteína do parasita.

O estudo sugere ainda que a molécula tem ação sobre outras espécies de Plasmodium. Segundo Godoi, o composto foi testado in vitro contra as enzimas CLK3 das espécies P. vivax e P. berghei e em cultura de células de P. knowlesi (similar a P. vivax) e P. berghei, mostrando atividade para as duas espécies.

“Foi também feito um teste em camundongos infectados com P. berghei. O resultado in vivo mostrou eliminação do parasita na corrente sanguínea após cinco dias de infecção”, disse.

Para ser considerada segura, uma molécula candidata a se tornar um fármaco não pode interferir com proteínas humanas. Tanto parasitas do gênero Plasmodium quanto seres humanos possuem enzimas do tipo quinase.

A quinase humana mais semelhante à proteína PfCLK3 de Plasmodium é a PRPF4B. Assim, para comprovar que a molécula TCMDC-135051 é segura, Tobin entrou em contato com o grupo do CQMED, um dos poucos que estudam a função da PRPF4B humana.

“Colocamos a PRPF4B para interagir com concentrações diferentes da nova molécula. E até a mais alta delas não foi capaz de inibir a enzima humana”, disse Godoi.

Para garantir que a molécula seria segura para um futuro medicamento, os pesquisadores precisavam provar que ela não afetaria a atividade de proteínas importantes para a funcionamento do organismo humano.

“Nós decidimos apostar em uma proteína pouco estudada e agora colhemos o fruto: tornar possível esse estudo com grande potencial para um novo medicamento”, disse Rafael Couñago, coordenador científico do CQMED.

Para se tornar um fármaco, porém, o inibidor ainda precisa passar por novos testes. “Precisamos melhorar ainda mais a segurança da molécula e, então, ela estará pronta para testes em humanos. Essa etapa deve levar de três a cinco anos”, disse Tobin.

O artigo Validation of the protein kinase PfCLK3 as a multistage crossspecies malarial drug target https://science.sciencemag.org/content/ 365/6456/eaau1682) (doi:10.1126/science.aau1682) teve participação de Mahmood M. Alam, Ana Sanchez-Azqueta, Omar Janha, Erika L. Flannery, Amit Mahindra, Kopano Mapesa, Aditya B. Char, Dev Sriranganadane, Nicolas M. B. Brancucci, Yevgeniya Antonova-Koch, Kathryn Crouch, Nelson Victor Simwela, Scott B. Millar, Jude Akinwale, Deborah Mitcheson, Lev Solyakov, Kate Dudek, Carolyn Jones, Cleofé Zapatero, Christian Doerig, Davis C. Nwakanma, Maria Jesús Vázquez, Gonzalo Colmenarejo, Maria Jose Lafuente-Monasterio, Maria Luisa Leon, Paulo H. C. Godoi, Jon M. Elkins, Andrew P. Waters, Andrew G. Jamieson, Elena Fernández Álvaro, Lisa C. Ranford-Cartwright, Matthias Marti, Elizabeth A. Winzeler, Francisco Javier Gamo e Andrew B. Tobin.