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Unicamp: Pesquisadores desenvolvem repelente para tecidos e superfícies

21/08/2019

Fonte: São Paulo

Além da prevenção ao surgimento da larva do Aedes aegypti, responsável pela transmissão de doenças como dengue, zika vírus, chikungunya e febre amarela, o uso do repelente também é um mecanismo importante de proteção. Com isso, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma tecnologia que age como repelente para ser utilizada em roupas, tecidos e superfícies como paredes.

Vale destacar que a tecnologia, disponível para licenciamento, utiliza o mesmo tipo de repelente já existente no mercado, mas com liberação mais lenta, o que garante uma proteção prolongada.

“O diferencial é que, por meio de técnicas de laboratório, como polimerização em miniemulsão, conseguimos imobilizar o repelente DEET para que ele se evapore mais lentamente, já que um dos problemas dos produtos convencionais é que o composto se evapora rapidamente ou é absorvido pela pele, necessitando aplicações frequentes”, explica Liliane Ferrareso Lona, professora da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) e responsável pela tecnologia.

“Ao ser aplicado sobre superfícies, incluindo tecidos, consegue-se uma liberação sustentada da substância para o ar por até doze horas”, acrescenta a docente. Em outras palavras, a tecnologia possibilita a encapsulação do DEET, já conhecido como um repelente eficaz de insetos, em partículas nanométricas de polímero.

“A restrição da evaporação dos compostos repelentes é possível com a introdução de uma barreira física entre eles e o ar. A encapsulação dessas substâncias e o uso como repelentes ambientais em tintas ou em impregnação de tecidos surgem como uma alternativa promissora que permite prolongar o efeito repelente dos compostos por meio da liberação sustentada”, revela Guilherme Martinate Gomes, aluno de pós-graduação e também responsável pela patente.

Vantagens

De acordo com os pesquisadores, um dos pontos altos da tecnologia é o fato de poder ser utilizado por crianças ou recém-nascidos, excluindo a necessidade de uso do repelente diretamente na pele. Mesmo que substâncias repelentes sejam eficazes com aplicação na pele em forma de loção, o uso é restrito e não há ação prolongada.

“Isso seria vantajoso no caso de alergias, ou para proteção de bebês, por exemplo, já que existem estudos que relacionam o DEET aplicado diretamente sobre a pele a doenças neurológicas”, afirma a professora. “O uso de repelentes de insetos é uma medida preventiva fundamental para que a transmissão de doenças como a dengue, malária e chikungunya seja evitada”, completa Guilherme Martinate Gomes.

Apesar da chegada dos meses mais frios do ano, várias regiões brasileiras têm notificado um aumento significativo nos casos de dengue. Cidades do Paraná e Bahia, por exemplo, já registram uma epidemia da doença que causada pelo Aedes aegypti.

Funed sedia curso internacional para investigação genética da dengue

21/08/2019
O curso será oferecido para técnicos em Biologia Molecular que realizam as análises de dengue

Fonte: Hoje em Dia

O Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana de Saúde/Organização Mundial de Saúde (Opas/OMS) realizam, a partir desta segunda-feira (19), na Fundação Ezequiel Dias (Funed) o curso “Tecnologia de sequenciamento genético baseada em nanoporos para investigação temporal e epidemiológica de surto de dengue: capacitação, pesquisa, vigilância e divulgação científica”. A atividade vai até o dia 30 de agosto.

De acordo com o pesquisador da Fiocruz e coordenador do evento, Luiz Carlos Alcantara, o projeto é relevante para identificação e mapeamento do vírus da dengue e as informações geradas pelos laboratórios permitem a prospecção de possíveis cenários epidemiológicos. Assim, os serviços de saúde (secretarias, vigilância epidemiológica, zoonoses) podem promover medidas de contenção para determinado surto e epidemia.

“Uma das informações geradas a partir do mapeamento genético do vírus permite entender onde e quando o surto começou e se existe a possiblidade de novos surtos. Esta informação é valiosa para a vigilância em saúde” explica Alcantara.

O curso será oferecido para técnicos em Biologia Molecular dos demais laboratórios centrais dos estados que realizam as análises de dengue. A Opas/OMS também convidou para participar da capacitação os laboratórios de saúde pública da América Latina. Durante as 96 horas de curso, entre conteúdo teórico e prático, os participantes vão aprender a fazer o mapeamento e a análise do material genético do vírus da dengue. As amostras do vírus de Minas Gerais, Bahia e Goiás serão sequenciadas no curso.

Os técnicos vão aprender também como trabalhar com os dados das amostras mapeados. Na primeira semana, será ensinado como são feitas as análises a partir dos dados clínicos e epidemiológicos. Na segunda semana, o conteúdo vai abordar as análises evolutivas do sequenciamento e, ao final do curso, será estruturado um artigo com todos os envolvidos nas análises realizadas. “É a primeira vez no Brasil que resultados obtidos de um treinamento de vigilância genômica irá gerar, em tempo real, um artigo científico”, afirma o pesquisador.

Abertura

O curso vai ser realizado nos laboratórios da diretoria do Instituto Octávio Magalhães (Diom), na fundação. Além da organização estrutural, a Funed irá disponibilizar insumos para o sequenciamento e amostras de dengue sequenciadas. Os pesquisadores Talita Adelino e Felipe Iani, ambos do Serviço de Virologia de Riquetsioses, da Diretoria do Instituto Octávio Magalhães (Diom), serão professores no curso.

A diretora da Diom, Marluce Aparecida Assunção Oliveira, reforça a importância do trabalho que vem sendo desenvolvido no Laboratório Central de Saúde Pública de Minas Gerais (Lacen-MG), na busca de respostas que subsidiem as ações da vigilância epidemiológica na prevenção e controle das arboviroses. As pesquisas realizadas e que ainda estão sendo desenvolvidas, para mapeamento genético do vírus da febre amarela, trouxeram para o estado um evento internacional que reunirá importantes laboratórios e pesquisadores do nacionais e internacionais.

A abertura da capacitação será às 16h30, no auditório central da Funed, nesta segunda-feira (19/8). O curso será ministrado por pesquisadores das universidades de Oxford (Inglaterra), de KwaZulu-Natal (África do Sul) e Nova de Lisboa (Portugal), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz – RJ/BA/AM), Funed, UFMG, universidades de Brasília (UnB) e de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Feira de Santana, Universidade de Salvador e Secretaria Municipal de Saúde de Feira de Santana.

A atividade tem organização e apoio da Fiocruz, da UFMG e dos Laboratórios Centrais de Saúde Pública de Minas Gerais, da Bahia e de Goiás.

Unicamp cria fórmula para combater mosquito da dengue com partícula de amido de milho e óleo de tomilho

12/08/2019
Partículas de combate ao mosquito Aedes aegypti são feitas de amido de milho e óleo de tomilho — Foto: Patrícia Cardoso/Unicamp
Produto é biodegradável e pode ser produzido em grande escala para a população por ter baixo custo, diz coordenadora do projeto. Óleo é agente larvicida letal para Aedes aegypti.

Pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma partícula biodegradável, feita de amido de milho e óleo essencial de tomilho, capaz de combater as larvas do mosquito Aedes aegypti.

O óleo de tomilho é um agente larvicida letal para o transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya.

Através da combinação dos dois compostos, foi criada uma partícula com liberação controlada de larvicida para pequenos volumes hídricos, como vasos de planta, pneus, garrafas e entulhos que podem servir de criadouro para o Aedes aegypti.

“Conseguimos obter uma partícula que se comporta exatamente como os ovos do mosquito. Enquanto o ambiente está seco, ela se mantém inerte e conserva o agente ativo protegido. A partir do momento em que entra em contato com a água, começa a inchar para permitir a liberação do larvicida”, explica a professora Ana Silvia Prata, coordenadora do estudo.

Após três dias, segundo ela, no período em que os ovos eclodem e tem início a fase larval, a partícula passa a liberar quantidades letais do princípio ativo na água.

Amido de milho garante estratégia

A base partícula de amido de milho tem a função de envolver o óleo de tomilho, que é liberado lentamente quando entra em contato com a água.

“Enquanto a água estiver com a concentração do óleo, ele não será liberado. Secou e molhou de novo, aí que vai liberar mais óleo”, explicou a professora.

Larvas do Aedes aegypti em laboratório de Campinas (SP). Mosquito é transmissor da dengue, chikungunya e zika — Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Larvas do Aedes aegypti em laboratório de Campinas (SP). Mosquito é transmissor da dengue, chikungunya e zika — Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Para chegar até estes produtos, o grupo testou outros ingredientes igualmente sustentáveis, como o extrato de jambu. A vantagem dos elementos escolhidos para os descartados foi o custo, cerca de 15 vezes menor.

A partícula de combate ao mosquito transmissor da dengue é capaz de eliminar as larvas do mosquito mais de uma vez em contato com a água.

“A gente projetou a partícula para ela ser seca e durar, ficar estocada. Não fizemos teste sistemático, mas, mesmo depois de um ano de produção, elas funcionaram”, disse Ana Silvia.

“A gente acredita que, sem molhar, a partícula pode ter uma vida de prateleira bem alta. Em relação à aplicação, temos uma ideia de que ela possa durar mais que cinco ciclos de chuva”, contou a coordenadora do estudo.

Partícula não é tóxica

A professora da FEA explicou que a concentração do óleo essencial de tomilho na partícula é muito baixa e, por isso, não afetaria a saúde de animais e seres humanos.

“A taxa é muito inferior ao limite de toxicidade para um animal ou uma criança que venha a ingerir acidentalmente”.

Campinas (SP) registra junho com maior número de casos de dengue em 21 anos — Foto: EPTV
Campinas (SP) registra junho com maior número de casos de dengue em 21 anos — Foto: EPTV

Sustentável e barato

Ana Silvia explicou que a partícula desenvolvida pela FEA é barata e poderia ser produzida em grande escala para distribuição à população. Segundo ela, esta seria uma medida complementar às campanhas que já têm sido feitas no país.

“A partícula teria o preço de R$ 30 o quilo, sendo R$ 15 a matéria-prima e R$ 15 o custo de produção”, apontou a professora.

Apesar de ser feita de produtos presentes na cozinha, a partícula não pode ser confeccionada em casa. Segundo a professora, o formato e as características não seriam alcançados sem auxílio de métodos feitos em laboratório.

“O óleo essencial de tomilho é um material altamente disponível, vendido comercialmente e representa apenas 5% da composição da partícula. Os outros 95% são amido de milho, que é muito barato”, pontuou a professora.

Brasil tem 90% dos casos de Leishmaniose Visceral Canina; saiba como prevenir

12/08/2019

cachorro deitado

Fonte: O Documento

Leishmaniose Visceral Canina (LVC) é uma doença que deixou de ser restrita à áreas de mata e muito úmidas e chegou às outras zonas do país, inclusive na Grande São Paulo. Como o Brasil possui 90% dos casos da enfermidade no mundo todo, o dia 10 de agosto foi escolhido como Dia do Combate à Leishmaniose Visceral Canina para conscientização. 

Transmitida pelo mosquito palha, a LVC é uma zoonose , ou seja, afeta cães e humanos. Como a doença avançou recentemente para os centros urbanos, é comum que muitos médicos veterinários não associem os sintomas rapidamente. “Consequentemente isso adia o tratamento, fazendo com que o problema se agrave”, explica Ricardo Cabral, veterinário da Virbac.

Antigamente os animais diagnostitcados eram encaminhados para a eutanásia e por isso muitos donos ficavam com receio de levá-los ao veterinário. Hoje, apesar de ser considerada fatal, já existe um remédio para a doença.  “O tratamento é feito por 28 dias seguidos, e os animais devem ser monitorados a cada quatro meses, pois um novo ciclo pode ser reiniciado se necessário. A doença não tem cura definitiva e os cuidados são para a vida toda”, completa Ricardo.Leia Também:  Cachorro invade missa em Belo Horizonte e reação do padre bomba na internet

O diagnóstico é feito via exames laboratoriais, já que os sintomas são muito abrangentes.

Sintomas da Leishmaniose Visceral Canina

  • Apatia;
  • Descamações na pele;
  •  Quedas de pelos;
  • Emagrecimento;
  • Lacrimejamento nos olhos;
  • Crescimento anormal das unhas.

Sintomas da Leishmaniose Visceral Humana:

  • Baço inchado;
  • Fígado inchado;
  • Fraqueza;
  • Febre longa.

A principal medida para prevenir a Leishmaniose é o combate ao mosquito transmissor. A doença não é transmitida de cães para humanos, como muitos pensam. “O pet é apenas o reservatório do parasita e a transmissão depende sempre da presença do mosquito vetor”, explica o veterinário. Por isso, é sempre preciso monitorar as condições de clima e locais em que as fêmeas gostam de depositar seus ovos. “Essa espécie prolifera-se em regiões úmidas e com depósitos de lixo a céu aberto (locais com muita matéria orgânica)”, finaliza.

Em BH, ministro da Saúde anuncia investimento de R$ 50 milhões em pesquisas de doenças

30/07/2019
Ministro Luiz Henrique Mandetta participa do Congresso MEDTROP-PARASITO 2019

Fonte: Hoje em Dia

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anunciou neste domingo (28) o investimento de R$ 50 milhões em pesquisas sobre doenças transmissíveis e negligenciadas. O anúncio foi feito durante a abertura do Congresso MEDTROP-PARASITO 2019, evento dedicado à medicina tropical e parasitologia. 

“Os recursos são destinados a pesquisadores das doenças que interessam ao Brasil, mas foram historicamente negligenciadas, como malária, leishmaniose e doença de Chagas. São doenças ainda muito presentes e nós temos que achar soluções para elas”, afirmou o ministro. 

O investimento será dividido em três chamadas públicas de pesquisa. Serão R$ 24 milhões para estudos sobre doenças negligenciadas, R$ 10 milhões para pesquisas exclusivamente dedicadas à malária, e R$ 16 milhões para estudos sobre tuberculose. Os temas selecionados foram definidos a partir da agenda de prioridades do ministério. 

De acordo com o ministro, a intenção do governo é mudar o caminho da pesquisa feita no Brasil. Tradicionalmente, o pesquisador escolhe a sua área de interesse e solicita os recursos juntos aos institutos de fomento. Desta vez, é o Ministério da Saúde quem está direcionando as pesquisas de interesse prioritário.

“Por exemplo, queremos saber se os testes rápidos para doenças como leishmaniose, Aids e sífilis estão funcionando. Queremos saber se a vacina para malária, anunciada há algum tempo, a partir da cepa de um vírus que não tem no Brasil, pode nos servir para achar uma vacina que sirva para a população brasileira”, explicou Mandetta, lembrando que o país também tem interesse em conhecer melhor uma vacina que os russos desenvolveram para a doença.

“Queremos soluções práticas. Aquelas pesquisas feitas para gerar mestrado são interessantes, mas queremos pesquisas vocacionadas para os produtos dos quais o Brasil precisa, sobre as nossas doenças, nossa realidade”, completou.

As chamadas serão publicadas no site do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ainda neste ano. Os projetos terão duração de 36 meses e o apoio, para cada pesquisa, poderá variar entre R$ 500 mil e R$ 2 milhões.

Risco de morte por febre amarela agora pode ser identificado mais cedo

30/07/2019
“Marcadores” da doença servem como indicadores para se descobrir o risco de a doença se agravar no paciente

Fonte: Exame

De cada 100 pessoas que são picadas por mosquitos infectados com o vírus da febre amarela, cerca de 10% desenvolverão sintomas da doença. Embora a maioria dos infectados com o vírus da febre amarela não desenvolva a doença, cerca de 40% dos que apresentam sintomas acabam morrendo.

A febre amarela vem sendo estudada há mais de um século, sendo que existe uma vacina bastante eficaz desde 1938. Apesar disso, ainda não se conheciam os sintomas primários específicos que pudessem ser utilizados pelos médicos de modo a estabelecer um prognóstico do grau de severidade da evolução da doença para cada paciente.

“Muitos pacientes que dão entrada no sistema de saúde com diagnóstico de febre amarela ainda não estão muito doentes. Vários chegam caminhando ao hospital, mas o que se observa nos dias seguintes é um quadro de piora acentuada, que muitas vezes leva ao óbito”, disse Esper Kallás, professor titular do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

“Ainda não se conheciam vários marcadores que pudessem ser empregados pela equipe médica para avaliar o prognóstico de cada paciente, permitindo identificar quais seriam os pacientes com mais chances de evoluir para um quadro de maior gravidade e poder tratá-los de acordo com tal prognóstico, elevando as chances de tratamento e cura”, disse Kallás.

Esses marcadores acabam de ser identificados e descritos em artigo na revista The Lancet Infectious Diseases. Assinam o artigo Kallás e outros 19 pesquisadores ligados à FMUSP, ao Instituto de Medicina Tropical (IMT) da FMUSP, ao Instituto de Infectologia Emílio Ribas e ao laboratório Diagnósticos da América (Dasa). O trabalho teve apoio da FAPESP por meio de projeto de pesquisa coordenado pela professora Ester Sabino, diretora do IMT e professora no Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da FMUSP.

O objetivo do estudo foi identificar os preditores de morte medidos na admissão hospitalar em um conjunto de pacientes internados no Hospital das Clínicas da FMUSP e no Instituto de Infectologia Emílio Ribas durante o surto de febre amarela de 2018 na periferia da cidade de São Paulo.

Entre 11 de janeiro e 10 de maio de 2018, 118 pacientes com suspeita de febre amarela foram internados no Hospital das Clínicas e outros 113 pacientes no Emílio Ribas.

Após uma triagem para a confirmação do diagnóstico, o estudo foi resumido a 76 pacientes (68 homens e 8 mulheres) com infecção confirmada pelo vírus da febre amarela, com base no RNA do vírus da febre amarela detectável no sangue (74 pacientes) ou no vírus da febre amarela confirmado apenas no laudo da autópsia (dois pacientes).

Dos 76 pacientes, 27 (36%) morreram durante o período de 60 dias após a internação hospitalar.

“A infecção da febre amarela foi confirmada pela técnica de PCR [reação em cadeia da polimerase] em tempo real no sangue coletado na admissão ou em tecidos na autópsia. Sequenciamos o genoma completo do vírus da febre amarela de indivíduos infectados e avaliamos os achados demográficos, clínicos e laboratoriais na admissão. Investigamos se qualquer uma dessas medidas se correlacionava com o óbito do paciente”, disse Kallás.

Marcadores da doença

Os pesquisadores identificaram que a febre amarela tende a ser mais grave quanto mais velho é o paciente. “Trata-se de um aspecto intuitivo. Faz sentido que os idosos sofram mais e tendam a ter um desfecho pior. Quanto mais velho o paciente, maiores são as chances de o quadro piorar”, disse Kallás.

A contagem de neutrófilos elevada, o aumento da enzima hepática AST (aspartato aminotransaminase) e a maior carga viral também estão associados ao risco de morte. Neutrófilos (ou leucócitos polimorfonucleares) são as células sanguíneas que fazem parte essencial do sistema imune inato.

Todos os 11 pacientes com contagem de neutrófilos igual ou superior a 4.000 células/ml e carga viral igual ou superior a 5.1 log10 cópias/ml (ou seja, aproximadamente 125 mil cópias do vírus por mililitro de sangue) morreram, em comparação com apenas três mortes entre os 27 pacientes com contagens de neutrófilos menor que 4.000 células/ml e cargas virais de menos de 5.1 log10 cópias/ml (menos de 125 mil cópias/ml).

“O organismo pode estar tentando combater alguma outra coisa que não é o vírus da febre amarela. Nossa hipótese é que a multiplicação do vírus nas células do intestino possa estar permitindo a passagem de bactérias que vivem no intestino para a corrente sanguínea. Essa poderia ser a razão para o acionamento do sistema imune e o aumento na produção de neutrófilos. Outra possibilidade é que, no doente, a resposta imune estaria desequilibrada, o que faria a pessoa piorar”, disse Kallás.

Outro marcador de severidade é o aumento da carga viral no sangue dos pacientes.

“Assim como ocorre com a idade avançada, parece lógico pensar que quanto maior for a quantidade de vírus no sangue, pior será o prognóstico do paciente. Mas é a primeira vez que alguém descreveu isso em um estudo”, disse Kallás.

Por outro lado, os pesquisadores constataram que a coloração amarelada na pele dos doentes, tão característica que está no nome da doença, não é um marcador de severidade no momento da entrada do paciente no hospital.

“A coloração amarelada, consequência da destruição das células do fígado pelo vírus, só aparece em casos de piora avançada. Em nosso estudo, nenhum dos pacientes que veio a óbito chegou ao hospital ostentando coloração amarelada”, disse Kallás.

Sabino destaca que o estudo representa um avanço muito importante, ao permitir que, “no caso de um surto de febre amarela como o que ocorre atualmente no Brasil, o pior em décadas, médicos realizam a triagem de pacientes no momento de entrada nos serviços de saúde, identificando aqueles pacientes que potencialmente poderão evoluir para casos mais severos. Com a antecipação nas internações em unidades de terapia intensiva, aumentam-se as chances de sobrevivência”.

Diagnóstico precoce

Após décadas de pesquisa da febre amarela, não havia até agora marcadores associados ao risco de morte dos pacientes em um ambiente com maiores recursos de assistência à saúde.

“As grandes epidemias de febre amarela que ocorreram em países com maior grau de desenvolvimento e, portanto, com melhores meios médico-científicos para identificar tais marcadores, aconteceram há décadas, praticamente todas antes do desenvolvimento da vacina, que começou a ser testada há 80 anos, antes da Segunda Guerra Mundial”, disse Kallás.

Em 2017, quando do início do surto recente de febre amarela no Brasil, Kallás, Sabino e colaboradores realizavam um trabalho de acompanhamento dos pacientes com dengue, chikungunya e zika, na tentativa de prever a transmissão e a distribuição no Brasil daquelas doenças igualmente provocadas por arbovírus, os vírus que são transmitidos aos humanos através da picada de insetos, como os mosquitos.

“Quando surgiram os primeiros sinais do surto de febre amarela, rapidamente percebemos que nos encontrávamos em condições ideais para acrescentar a febre amarela ao foco das nossas investigações, com vistas a detectar os fatores preditivos da severidade da doença. A colaboração entre o Instituto de Infectologia Emílio Ribas e o Hospital das Clínicas da FMUSP foi fundamental para fazer esta contribuição”, disse Kallás.

A identificação de marcadores prognósticos em pacientes pode ajudar os médicos a priorizar a internação na unidade de terapia intensiva, pois o estado geral dos pacientes deteriora rapidamente.

“Coloque-se no lugar de um médico que examina um paciente diagnosticado com febre amarela e que acaba de ser internado. Não se sabia qual seria o prognóstico mais provável daquele paciente. O que se verificaria seria uma piora muito acentuada e rápida, ou não. Nosso trabalho ajudará a entender o que ocorre com os pacientes. Aqueles que contarem com todos os marcadores de severidade no momento da internação serão os que terão mais risco de morrer. Logo, será possível aos médicos estabelecer prioridades, enviando tais pacientes mais precocemente à terapia intensiva”, disse Kallás.

Ao mesmo tempo, a alocação de recursos seria melhorada para priorizar exames laboratoriais mais úteis para determinar se um paciente poderia ter um resultado melhor.

Composto de planta brasileira combate leishmaniose e doença de Chagas

19/07/2019
parasitas

Fonte: Jornal O Tempo

Um composto natural isolado de uma planta originária da Mata Atlântica, popularmente conhecida como canela-seca ou canela-branca (Nectranda leucantha), pode resultar em novos medicamentos para o tratamento da leishmaniose visceral e da doença de Chagas.


Pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz constataram em um estudo apoiado pela FAPESP que substâncias derivadas de uma molécula da planta, pertencente ao grupo das neolignanas, são capazes de combater os parasitas transmissores dessas doenças que afetam milhões de pessoas no Brasil e em outros países em desenvolvimento.

Os resultados do trabalho foram publicados na revista Scientific Reports e no European Journal of Medicinal Chemistry. “Observamos que os compostos foram altamente potentes contra a Leishmania infantum, causadora da leishmaniose visceral, e o Trypanosoma cruzi, transmissor da doença de Chagas”, disse André Gustavo Tempone, pesquisador do Centro de Parasitologia e Micologia do Instituto Adolfo Lutz e coordenador do estudo, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores da instituição têm se dedicado nos últimos anos a identificar compostos provenientes da biodiversidade da Mata Atlântica que possam resultar no desenvolvimento de novos fármacos para combater
doenças negligenciadas – causadas por agentes infecciosos ou parasitas e
que afetam principalmente as populações mais pobres.

Durante um projeto em colaboração com João Henrique Ghilardi Lago,
professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), foi possível isolar a neolignana. Já por meio de um projeto em colaboração com colegas da Ohio State University, também apoiado pela FAPESP, foi possível avaliar e comprovar o efeito do composto sobre células do sistema imunológico.

Agora, em um projeto em colaboração com Edward Alexander Anderson, professor da Universidade de Oxford, da Inglaterra, também apoiado pela FAPESP na modalidade São Paulo Researchers in International Collaboration (SPRINT), foram sintetizados 23 novos compostos derivados da molécula.

“Uma das limitações no desenvolvimento de novos fármacos para o tratamento de doenças negligenciadas é encontrar parceiros para fazer a síntese dos compostos promissores. A colaboração com o grupo da Universidade de Oxford possibilitou darmos esse passo”, disse Tempone.
Os pesquisadores avaliaram os efeitos dos compostos derivados da molécula em células de Leishmania infantum. Os resultados das análises indicaram que quatro deles se mostraram capazes de atingir a mitocôndria do parasita, que é um potencial alvo molecular de um fármaco para combatê-lo.

Diferentemente de humanos, que podem ter até 2 mil mitocôndrias, a Leishmania infantum possui apenas uma, explicou Tempone. “Constatamos que os compostos tiveram uma forte atuação na mitocôndria desse parasita”, afirmou.

Os compostos provocam um aumento abrupto do nível de cálcio no interior das células da Leishmania infantum. Essa alteração causa uma perturbação na mitocôndria do parasita, provocando sua morte.

“Nossa hipótese é que os compostos interferem drasticamente na liberação
do cálcio no interior das células e, dessa forma, prejudicam a principal fonte de armazenamento de energia do parasita, que é a ATP [adenosina
trifosfato], produzida pela mitocôndria”, disse Tempone.

Os compostos também interferiram no ciclo celular da leishmania, induzindo um mecanismo semelhante à morte celular programada e afetando a replicação do DNA. Efeitos similares também foram observados em ensaios com Trypanosoma cruzi.

“Também verificamos que a mitocôndria do Trypanosoma cruzi sofre uma
alteração logo no início da incubação dos compostos pelo parasita”, disse
Tempone.

Os pesquisadores pretendem, agora, otimizar os compostos, de modo a assegurar sua biodisponibilidade adequada no organismo. Essa etapa de avaliação da eficácia e segurança das moléculas é crucial para avançar para os estudos com animais, uma vez que mais de 90% dos compostos candidatos a fármacos testados in vitro (em células) falham nessa fase, explicou Tempone.

“Estamos otimizando os compostos por meio da química medicinal para que possamos aumentar a taxa de sucesso nos estudos em modelo animal. Mas os compostos que obtivemos já são protótipos bastante promissores para combater a leishmaniose e atendem às recomendações da DNDi”, disse Tempone.

Uma das recomendações da iniciativa internacional é que os compostos promissores para o tratamento de doenças negligenciadas sejam fáceis de serem sintetizados. “A síntese dos compostos que estamos estudando é simples, feita em cinco etapas, e são baratos”, disse Tempone.